CAPÍTULO I- Chegada

17-09-2010 21:20


                Nikki encarava da janela do taxi, a enorme casa beira mar que mais se parecia um castelo.  Tinha impressão que seria muito maior quando se aproximasse mesmo já a considerando incrivelmente grande, pela visão que tinha da janela totalmente aberta.
                A partir daquele dia, seria ali o local onde passaria a maior parte de seu tempo, onde trabalharia como babá.
                Até onde sua necessidade de fugir de seu passado a levou?! Pensava enquanto as lembranças de um tempo que preferia esquecer insistiam em invadir sua mente, por mais que tentasse evitar.  
                Nicole, ou como era conhecida no meio artístico, Nikki, cresceu nos palcos e cercada de câmeras. Dona de uma beleza estonteante e de um jeito único, sempre foi julgada por sua aparecia, aliás, todos que se aproximavam ou deixavam de se aproximar era por esse motivo.

Cresceu cercada de aparências e interesses, em um mundo onde não levavam em consideração quem era, e sim o que seria e como se aproveitariam disso. Aquela mudança era uma rota de fuga, talvez até dela mesma, ou de quem tinha medo de se tornar.


_ Tem certeza que é mesmo esse endereço, senhorita?
_ Sim, foi o que me deram na agência – disse dando de ombros.
_ Deve ter ocorrido algum engano – o taxista disse trêmulo – ninguém entra nesse lugar a anos, exceto os empregados.
_ Verdade?! – disse um pouco sem paciência. Não estava com vontade de escutar lendas urbanas naquele momento, mas, seria válido se aquele homem continuasse falando e a deixasse apenas com seus pensamentos.

 

Ela certamente era muito boa nisso. Em uma grande parte de sua vida, apenas sorria e assentia para as histórias que as pessoas lhe contavam, mesmo nunca tendo escutado a maioria delas.

Mesmo sem saber do que se tratava, tinha certeza de que não estava perdendo nada.


_ Sim, desde que o dono da casa sofreu um acidente, ninguém o viu mais... Mas, dizem que ficou horrível.
_ Se ninguém o viu, como sabem?! – Nicole já estava um pouco incomodada. Nada lhe irritava mais que a prepotência das pessoas que julgavam tudo apenas pelas aparências. Sabia muito bem como aquilo machucava, e sem dúvidas, não o desejava para ninguém.
_ Bem, chegamos –o taxista disse  um pouco receoso ao perceber a irritação de Nicole.
_ Quanto é?
_ Nada. Eu tenho pena de você menina, não sabe o que lhe aguarda nessa casa. Dizem que agora se parece um monstro...
_ Se não vai cobrar, até. E novamente, não me importo. Obrigada e passar bem. – ela saía quando se virou novamente – e não tenha pena de mim, comece sentindo pela de si mesmo, porque ainda vai sofrer muito se viver apenas ligado as aparências.

_ Queria ver se diria isso mesmo sendo feia – o homem resmungou se afundando no banco da frente.

 

Nicole realmente iria respondê-lo, mas, decidiu que não valia à pena. Em seguida desceu do carro apenas com sua valise e bolsa.

O taxista a seguiu deixando as malas na entrada e saindo em alta velocidade, sem olhar para trás.

Nicole apenas murmurou um idiota antes de se voltar novamente para a entrada daquela casa.

Se preparava para bater na porta quando a mesma se abriu. Uma voz grave e extremamente sedutora ordenou que entrasse.

Pela primeira vez desde que saiu da sua cidade, abandonando a antiga vida para tentar ser apenas quem realmente era, Nicole sentiu medo.  O que realmente lhe aguardava naquele local?


_ Deixe as malas aí fora, Jackson buscará depois – a voz disse um pouco mais distante dessa vez.

 

                Respirou fundo adentrando no local após a segunda ordem. Seguiu com sua bagagem de mão que mal conseguia carregar de tão trêmula que estava.


_ Meu nome é...
_ Nicole Houston Reed – disse completando sua frase – Meu nome é Kellan Christopher Lutz e eu serei seu patrão daqui para frente. Não precisa me passar suas informações, a agencia me mandou uma ficha sobre você e suas qualificações profissionais.


                Disse seco, sem expressão. Nicole não podia ver sequer a face de quem estava falando. A pouca iluminação deixava à mostra apenas uma silhueta forte e musculosa, parecendo uma bela estátua daqueles gregos que eram sinônimo de beleza e que apareciam em suas apostilas de artes. As sombras formadas na sala à faziam tremer, e ela temia que com todo aquele escuro, acabaria tropeçando em algo.


_ Minha filha, chega daqui a três dias, você a pegará no porto – continuou, como se qualquer simpatia com aquela estranha fosse desnecessária – siga-me, lhe mostrarei seu quarto.

 

Percebeu que o dono da voz se movia com rapidez pela escada. Assim como a sala, a casa estava completamente escura, mas, ao que parecia haviam parado em frente a uma porta.

_ Bem, seu quarto. Presumo que esteja cansada e queira tomar um banho, descansar. Sem dúvidas é uma longa viagem. Mais tarde Ashley lhe mostrará a casa e as demais instruções serão passadas a você depois.
_ Espere! Não vamos falar sobre a criança?!
_ Lhe passarei instruções – disse indo em direção ao fim do corredor – depois.

 

Nikki o viu sumir e logo depois entrou no quarto perfeitamente decorado e claro. Enfim um  lugar bem iluminado naquela casa. Era o tipo de ambiente que se encontrava nas revistas mais refinadas.
                Após colocar suas coisas sob a poltrona que se encontrava em um dos cantos do quarto, deixou seu corpo cair sobre a cama.
                Em que tipo de universo, estaria se metendo? –  Pensou. Quem seria aquele homem que se escondia nas sombras? Kellan?! O que significava um simples nome ?! E a garota? Quem seria? Como se chamava?! Sabia que tinha quatro anos e que perdera a mãe, mas, o que mais?!
                Seria mesmo prudente largar todas suas certezas e medos por aquela enigmática família? Sua mente vagava. Não sabia se fazia o certo, porém, tinha absoluta certeza de que iria até o fim daquela história.


                Enquanto isso.


-Pedi uma babá e olha o que me manda Kristen.
-Nicole é competente, senhor.

_ Claro, uma modelete que mal deve saber cuidar de uma criança.

_ Está sendo injusto. Você não a viu trabalhando ainda.
_  Outro problema é que ela é incrivelmente bonita. Sabe há quanto tempo não entram mulheres nessa casa?! E tão nova?! E se não for capaz de cuidar de minha filha corretamente?
_ Como lhe disse ela é muito competente, Lutz. Mas, do que tem medo? De Nicole despertar em você sentimentos que lhe estão reclusos?! Por Deus, sua esposa morreu e o que aconteceu, bem, foi uma fatalidade, mas, não pode viver em reclusão para sempre. E da mesma maneira, faziam anos que ela havia abandonado a casa.
_ Ao contrário do que pensa, eu posso sim viver na reclusão para sempre. Depois que se acostuma se torna algo fácil. E quanto à garota, farei um teste com ela, e se algo acontecer a Sophie, a responsabilizarei. Aliás, a ela, e a você, Kristen.


                Logo depois de despejar toda sua raiva naquela mulher, ele desligou. Apesar de fingir ser uma pessoa inatingível, aquelas palavras lhe doeram como um tapa na cara.
                Medo. Talvez fosse essa a palavra. Mas, porque temê-la?! Não se veriam, não conviveriam diariamente. Seria apenas mais uma presença naquela casa.
                O que realmente lhe preocupava era Sophie. Nunca sequer havia visto a filha. A garota estava com quatro anos e soube de sua existência a pouco mais de uma semana, quando lhe informaram também sobre a morte da ex-esposa.

                Nikki seria o amparo da garota naquela casa, ela nunca o veria. Kellan disse passando a mão sobre a face esquerda e suas cicatrizes. Ela nunca poderia vê-lo. Nenhuma das duas.

Nicole repousava em seu quarto quando ouviu batidas na porta. Seria ele?! Se levantou rapidamente e abrindo a mesma.

Uma mulher baixa e extremamente bonita estava na porta.


_ Olá, meu nome é Ashley. Você é?
_ Nicole, mas, pode me chamar de Nikki.
_ Então bem vinda, Nikki – entrou no quarto e encostou a porta em seguida – estarei por aqui, duas vezes na semana, limpando a casa. Qualquer coisa, peça ao meu marido, Jackson. Ele está aqui todos os dias.
_ Tudo bem...
_ Gostou de seus aposentos?
_ Sim, é fantástico.Me sinto em uma revista de decorações. Posso fazer uma pergunta?
_ Claro. Quantas quiser querida.
_ Kellan é sempre assim?
_ Diz, fechado? Sim. Bem, não espere vê-lo. Ele nunca aparece pra ninguém, exceto para Jackson. Eu trabalho aqui há três anos e nunca o vi. Bem, vamos. Vou lhe mostrar o básico da casa.
                Nikki olhou tudo atentamente e pode perceber que quando aquele homem estava escondido, as cortinas das salas e corredores eram abertas, então aquele ambiente se transformava, ficando elegante e muito aconchegante.


_ Bem, creio que acabamos – disse Ashley sorrindo – agora já vou. Fique a vontade e se quiser comer algo, a geladeira está abastecida. Espero que goste daqui. Nos daremos muito bem.


                Após se despedirem, Nikki seguiu para sala. Passava das 19 horas e o sol havia se posto.
                Ela desceu. Agora realmente estava com fome. Após uma boa olhada pela geladeira, decidiu fazer strogonoff, uma de suas especialidades.

                O cheiro chegou ao escritório de Kellan que percebeu que estava realmente com fome.
Quando estava quase tudo pronto, sentiu que alguém a estava olhando. E de fato estava, não era uma impressão, era Kellan.


_ Quem está aí? –disse ela se virando. O silêncio pairava. Sentiu que se sentiria em um filme de terror até que se acostumasse com aquilo – Eu sei que tem alguém aqui.
_ Sou eu – a voz veio por trás da porta semi-fechada .
_ O senhor aceita? – disse apagando o fogo – Digo, deve estar com fome. Brincar de esconde-esconde por vinte e quatro horas deve ser cansativo – disse em tom de deboche.
_ Depois como algo e a propósito, pare com essa ironia. Não combina com sua aparência angelical – Disse se virando.
_ Espere, senhor. Precisamos conversar.
_ Depois Jackson lhe explicará tudo!
_ Mas, eu preciso saber sobre a menina.
_ Eu sei tanto de Sophie quanto você.
_ Impossível. Eu sou uma estranha, e o senhor, pai dela.
_ Não a conheço. Soube da existência de minha filha há pouco. Na verdade após a morte da mãe. Não sei lhe dizer nada sobre ela...
_ O senhor só conversará comigo através de portas?
_ Sim e sinta-se satisfeita em eu falar com você assim. Não gosto muito de conversas.
_ E quanto a sua filha?!
_ Eu não a verei.
_ Como não?! Ela deve estar assustada. E o senhor é o pai, ela perguntará por você!
_ Eu não aparecerei para ela. Não quero ser o motivo dos pesadelos de minha filha.
_ Mas senhor...  Espere, o que quer dizer?!


                Tarde de mais. Ele não estava mais ali.
                Após jantar, Nikki subiu lentamente. Quando chegava ao topo da escada viu a silhueta passar pela sala. Ela caminhou para o quarto.
                Quem realmente seria Kellan Lutz?